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O novo ouro negro


Passaram 13 anos da descoberta do grafeno e só a União Europeia investiu mil milhões de euros para investigar este material. A Graphenest colocou Portugal no mapa da inovação.

Serendipidade: uma descoberta acidental, ao estilo do tropeção de Alexander Flemming na penicilina. Ou, já no século XXI, a forma como dois cientistas da Universidade de Manchester descobriram uma forma de isolar o grafeno quando se entretinham a retirar camadas de um bloco de grafite com fita-cola. Aperceberam-se de que conseguiam chegar a uma folha de carbono com um átomo, característica que dá ao grafeno o título de material bidimensional. Este potente condutor de calor e electricidade é também o material mais leve, fino e forte que existe, ao ser constituído por uma camada extremamente fina de grafite mas com uma estrutura de átomos individuais que lhe dão uma resistência extraordinária.
A descoberta do grafeno, em 2004, renderia a Andre Geim e Konstantin Novoselov o prémio Nobel da Física apenas seis anos depois.
E volvidos três anos, em 2013, a União Europeia lançaria a maior iniciativa de investigação científica mundial: mil milhões de euros de orçamento para que um consórcio de investigadores académicos e industriais (como a Fiat, a Sanofi Aventis ou a IBM) tirem o grafeno dos laboratórios e o façam ajudar a economia a crescer através de novos empregos e oportunidades. Há quem acredite que a partir da próxima década este material estará a render milhares de milhões de euros ao ano.
Tal como os investigadores da Universidade de Manchester, também o engenheiro mecânico Vítor Abrantes chegou ao grafeno pelo acaso: certo dia de 2013, ao passar os olhos pelas notícias no Facebook, leu sobre uma bateria de telemóvel com grafeno, que recarregava em poucos minutos. A notícia foi a epifania para o projecto que viria a redundar na Graphenest, empresa portuguesa pertencente ao tal consórcio da União Europeia, o “The Graphene Flagship”. Com a mão científica de Bruno Figueiredo – considerado pela FORBES um dos nomes sub-30 a seguir na ciência mundial –, e a acuidade técnica de Rui Silva, ambos engenheiros químicos, Vítor deu vida a um método de sintetização de grafeno que é o cerne desta empresa sediada em Paradela do Vouga.
Tal como muitos especialistas mundiais, os fundadores da Graphenest antevêem a afirmação do grafeno como material convencional, a exemplo do alumínio ou cobre, entre 2020 e 2022. Nessa altura poderá deixar de ser o “material maravilha” que hoje lhe chamam. Na relação com o próprio peso, é 100 vezes mais forte que o aço, mas flexível o suficiente para permitir que um ecrã de telemóvel se torça e contorça nas mãos. Mil vezes mais fino que uma folha de papel, nem mesmo o cobre tem tamanha condutibilidade eléctrica.
Mas para perceber o que a Graphenest faz actualmente é preciso recuar na história: antes de entrar na universidade, aos 24 anos, Vítor tinha um curso informático do liceu e vendia móveis de escritório.
Hoje passa horas agarrado ao telefone e em reuniões com quadros de topo. No dia da visita da FORBES ao laboratório da Graphenest, o presidente-executivo ausentou-se para apresentar o seu grafeno a um dos maiores exércitos mundiais, numa reunião via Skype que, contou-nos, os colocou num restrito lote de potenciais fornecedores. Entretanto, e de forma abstracta, Bruno explica que o grafeno no meio militar permite drones mais ligeiros e equipados com baterias de maior autonomia. Rui é, dos três fundadores, o mais ausente, sempre ocupado em manter operacional o equipamento “top secret”.
Há cada vez mais aplicações em desenvolvimento deste material profundamente resistente: filtragem de água a baixo custo – incluindo dessalinização, que a cada seca nacional lá surge nas cogitações –, novas solas para sapatos de running e fitness, que já está em testes intensivos na montanha, e utilização em equipamento desportivo são só a ponta do iceberg. O grafeno entrará ainda em lentes de contacto, pulseiras com ecrã ou baterias para automóveis eléctricos –até tem a desfaçatez de roubar ao petróleo o cognome de “ouro negro”. Ecrãs e baterias flexíveis são outras das possibilidades que este material oferece, para além de abrir boas perspectivas no que toca a novos meios de diagnóstico e tratamento, no sector da saúde.
Em Portugal, a Unilever e a Infineon, spin-off da Siemens, são duas das empresas que já aceitaram ouvir o “pitch” de Vítor, cujo desejo de explorar o grafeno o levou a deixar o mestrado de Desenvolvimento de Produto a meio e mudar para Engenharia de Materiais – Mestrado que também não concluiu, porque, entretanto, criou a Graphenest. “Quando vender a empresa vou ter tempo de terminar”, promete. E neste momento, a Graphenest tem um trunfo que a fazer valer bastante dinheiro: é que a pequena start-up produz grafeno num nível industrial mas a um custo diminuto. Segundo o “The Graphene Council”, entidade internacional de estudo de grafeno, a empresa portuguesa está a fazê-lo a um custo mil vezes inferior ao do método tradicional.
À FORBES, no entanto, a equipa de fundadores diz que estamos a falar apenas de metade desse valor.
Mas apesar de poderem aliciar clientes pelo preço, os fundadores escolhem alinhar com a concorrência e investir os ganhos na capitalização da empresa, assegurando assim a sua imagem e credibilidade, algo que, consideram, um preço “explosivo” prejudicaria.

Gastar pouco, gerar muito

Em Dezembro de 2014, os fundadores da Graphenest decidiram concorrer ao financiamento da Portugal Ventures, da qual receberam 700 mil euros cerca de seis meses depois. Fonte oficial da sociedade de capital de risco do Estado justifica o investimento com a tecnologia de produção de grafeno e a capacidade de escala da mesma, e com o custo de produção muito inferior aos outros métodos alternativos. Em 2015, a Graphenest já tinha a sua patente provisória e em Maio de 2016 teve a validação da tecnologia.
“A Graphenest está a desenvolver parcerias com várias empresas nacionais e internacionais com o intuito não só de fornecer o grafeno, como também de desenvolver todo o processo de incorporação do mesmo nos produtos/soluções desses seus clientes”, explica a Portugal Ventures em declarações à FORBES, antes de destacar dois pontos fortes desta equipa: a solidez científica e a complementaridade entre os seus membros. Um novo investimento será avaliado “quando a questão se colocar, e enquadrada no contexto que existir no momento. É sempre uma análise e decisão casuística”, concluiu a mesma fonte. É por isso que para o responsável da Graphenest é muito claro que “é hora de saltar a cerca” e ir lá fora procurar o capital que falta a Portugal, adianta Vítor. O presidente-executivo da empresa reconhece o esforço do Governo no Fundo Coinvestimento de 200 milhões de euros, criado para PME e start-ups, e do qual a Graphenest espera poder vir a beneficiar, mas para conseguir explorar o potencial do grafeno precisa de mais.
“Não somos uma empresa familiar. A nossa ideia é sermos adquiridos por uma grande empresa”, diz Vítor, apontando uma “exit” a cinco anos. Para que seja possível, os fundadores contam com uma explosão nas receitas, fruto da descoberta de um método de contenção nos custos. Primeiro, fizeram engenharia inversa, estudando e desmontando as máquinas existentes no mercado. Com menos de 10 mil euros criaram maquinaria de produção de grafeno alternativa àquela que no mercado se vende por cerca de 50 mil euros. Nas duas máquinas do seu sistema – que o segredo industrial nos impede de espelhar nestas páginas – investiram 160 mil euros.
“Após a validação da tecnologia, está na hora de ir vender, abordar o mercado”, atira Vítor, que, tal como os seus sócios, se viu na obrigação de complementar a formação de engenheiro com a faceta de “marqueteiro”. “Não sabíamos como funcionava o mercado e as grandes empresas não tinham background para incorporação do grafeno [nos seus produtos], ou tinham ficado escaldadas com experiências anteriores”, explica o presidente.

De olhos no futuro

Para já, a Graphenest tem cinco projectos em mãos, com o desenvolvimento pago pelos clientes, que em troca receberão o produto adaptado às suas exigências. “Não podemos colocar no mercado produtos que não estejam bem desenvolvidos
e testados”, salienta. A própria comunicação foi adaptada à dimensão dos novos clientes, passando a ser feita não com a chancela de start-up, mas de empresa estabelecida, salienta Vítor. E, numa nota sintomática da juventude do projecto e dos seus fundadores, Bruno afirma que se acabaram as propostas numa folha A4 “descoordenada”.
A Portugal Ventures considera que “o projecto está, genericamente, a correr conforme previsto e o desempenho da equipa a corresponder às expectativas iniciais”. Vítor confidencia-nos: “Ainda agora estava ao telefone com o CEO da Martifer e disse-lhe ‘temos que arranjar um projecto para desenvolver convosco. Se não forem vocês, será com a concorrência’”.
Para atingir a escala de produção industrial falta erigir o novo pavilhão e reforçar a maquinaria, assim se cumpram as três rondas de capital previstas para captação de 50 a 75 milhões de euros. A isto ajudarão viagens como a feita à Alemanha, em que o Vítor e Bruno falaram com responsáveis da Carl Zeiss e da Sony, sendo que esta já está a avaliar um projecto da Graphenest, tal como está a fazer a Intel. Por cá, a Graphenest colabora com uma empresa que testará em breve equipamento desportivo injectado com grafeno e que, a ser validado, chegará aos Jogos Olímpicos. Um dos segredos bem guardados na sala do Vougapark, uma antiga fábrica de cereais em Sever do Vouga transformada numa incubadora de empresas. “É uma bola de neve, com o ganho de credibilidade e de referências. As coisas estão a adquirir um ritmo mais acelerado”, admite Vítor. Por seu lado, Bruno acrescenta que demorou um ano até chegarem a este ponto. “Penámos um bocado a mostrar quem somos, o que fazemos”, assinala. E por isso, também, estão focados em colocar Portugal no mapa da produção e utilização do grafeno, como têm conseguido fazer até aqui.